E se? - Reflexões sobre a crise global e a Economia da Funcionalidade e da Cooperação


E se? E se nosso modelo econômico fosse capaz de refletir valores diferentes simplesmente do monetário? E se fosse capaz de reforçar o território, não mais como simples receptor de atividades, mas conectado a biodiversidade local, a saúde das pessoas e a um policentrismo urbano que favorece a igualdade de acesso aos serviços? E se nosso modelo econômico se centrasse nas reais funcionalidades da vida, oferecendo um sistema de saúde focado na prevenção, bem estar alimentar acessível a todos e mobilidade espacial baseada na multimodalidade dos sistemas de transporte? E se esse modelo levasse em consideração a dimensão humana do trabalho, através do investimento em recursos imateriais (de confiança, cooperação, responsabilidade) e do reconhecimento do trabalho real?


Muito temos a refletir a partir de uma crise global não apenas sanitária, mas que reflete as externalidades negativas de um modelo globalizado insustentável: do tráfico ilegal de animais selvagens ameaçados de extinção, a um sistema econômico de baixa resiliência e à falta de responsabilidade coletiva.


A globalização e uma economia centrada na lógica de volume e produção em massa, ampliou o mundo num novo dimensionamento do espaço geográfico, facilitando transações (financeiras, materiais e humanas) e ampliando a competitividade e as diferenças econômicas e sociais. São vastos os efeitos desse molde contemporâneo, assim como os riscos sistêmicos negativos a todo planeta. Os que ainda refutavam das consequências dessa crescente integração e interdependência global, agora percebem (e sentem) o desequilíbrio ecossistêmico e as sequelas do afastamento das relações territoriais e necessidades locais.


A soberania das grandes, inter e multi se evidencia. Poucos ganham, muitos perdem, trazendo à tona a desigualdade econômica impulsionada pela competitividade e pelo peso relativo que desfavorece as pequenas e médias iniciativas. Frente a pandemia atual e a necessidade de conter a propagação do vírus, suspendeu-se as atividades de universidades, academias, shopping-center. Suspendeu-se a circulação, a aglomeração e a vida social. O confinamento vem deixando os pequenos comércios e as pequenas indústrias a beira de um colapso financeiro, sobretudo as que refletem o modelo linear indexado no volume e preço. Ao contrário, grandes varejistas possuem estrutura para suportar flutuações, seja pela infraestrutura para manter funcionamento (in loco e remoto), seja negociando com fornecedores para barrar escalada de preços. Vamos testemunhar o fim de pequenos estabelecimentos. O grande fica. O grande até lucra com tudo isso. O mercadinho do Tio Zé não. Aliás, o Tio Zé, grupo de risco, continua trabalhando.


É hora de rever modelos econômicos. É hora de refletir sobre os limites do atual modelo econômico dominante, não apenas pela sua incapacidade de responder aos desafios econômicos, mas de levar em consideração os desafios sociais. Vê-se pessoas estocando álcool em gel, papel higiênico, analgésicos, água, comida. Vê-se, ainda, escalada de preços em gêneros alimentícios e medicamentos. Sim, é hora de refletir sobre autorresponsabilidade, sobre senso de comunidade, sobre responsabilidade coletiva.


É hora de enaltecer as externalidades positivas que essa desaceleração tem provocado: a água cristalina dos canais de Veneza, o ar menos poluído nas grandes cidades, as iniciativas de cooperação e solidariedade. Ainda, incentivar o retorno à preocupação com o nosso território, do senso de pertencimento e unidade.


E se as externalidades do território guiassem as atividades econômicas? E se a criação de valor dos modelos de negócio emergisse de ações coletivas, não para interesses privados mas para o interesse comum? E se juntos (independente do nome que se dê ao modelo ou sistema) trabalhássemos a serviço da sociedade?


Apesar do desespero e do caos, situações de colapso e crise trazem oportunidades e esperança. Trazem a necessidade de reflexão, inovação e atenção aos modelos alternativos, sobretudo direcionados a sustentabilidade econômica, ambiental e social.


Dentre tantos “e se”, tem-se a abordagem da Economia da Funcionalidade e da Cooperação (EFC), que coloca o território como elemento chave na criação de valor aos clientes beneficiários e sociedade. Essa abordagem já vem sendo trabalhada há algum tempo na França, através de um trabalho de orientação e acompanhamento de dirigentes de empresas para a transição de seus modelos econômicos em direção a uma trajetória orientada à EFC. Por meio de um modelo de governança cooperativa, que coordena agentes públicos, privados e coletividades territoriais, a formulação da proposição de valor (focada em soluções integradas de bens e serviços) se dá juntamente com o cliente, implicando em relações de proximidade e em uma lógica de territorialidade empresarial.


Muita reflexividade, sim. Pensar que caminhos alternativos são utópicos, ou revolucionários demais, é sobretudo um ponto de partida no que realmente pode ser de fato sustentável. As margens de escolha são limitadas em um mundo que impera um modelo econômico dominante, mas compreendendo que a transformação vem pela base através da reconexão das empresas com seu próprio território, coloca a Economia da Funcionalidade e da Cooperação em perspectiva. Sobretudo por se tratar de uma abordagem que traz como imperativo a reflexividade organizacional e das próprias trajetórias econômicas. Afinal, nada é perene, nem o modelo dominante, nem mercadinho do Tio Zé, nem o vírus.


Autoria: Amanda Xavier

Coordenadora do Club EFC Rio (@clubeefcrio) e do Laboratório PRO-PME COPPE/UFRJ- Centro de Referência em Desenvolvimento Tecnológico e Gerencial de PMEs.

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